Brumadinho: a dor do luto coletivo

Brumadinho é uma cidade triste. De ombros caídos e olhares cansados. O luto se sente nas ruas, em cada conversa casual com seus habitantes que não esquecem o dia em que a barragem se rompeu e tudo mudou. Se sente no pó marrom que cobre a cidade e na cor de lama do Rio Paraopeba, que faz a tragédia ser lembrada não só pelas pessoas, mas também pela natureza. Dizem que o tempo cura tudo, mas a dor parece não deixar a pequena cidade do interior de Minas Gerais tão cedo.


Estive lá exatos 6 meses depois do infame 25 de Janeiro. Adentrei por 4 dias pelo sofrimento e pela lama para tentar entender o que fica depois do crime. O que fica depois que já não se fala mais no assunto. Encontrei uma comunidade inteira atingida – em vários níveis. Sem parentes, sem amigos, sem colegas, sem vizinhos e sem reconhecer o lugar que antes era seu. Desacreditados com o futuro e abalados com um passado que não puderam controlar.

Doeu em tudo.

Me doeu no coração ver tantos olhos cobertos de lágrimas e tanta gente devastada pela ausência que a tragédia deixou. Me doeu no pulmão respirar aquele cheiro pútrido da lama que ainda resta próximo a barragem. Me doeu a cabeça e me revirou o estômago ver o quão longe a ganância humana pode ir e o quão pouco uma vida vale diante dos lucros de uma empresa. Me doeu em algum lugar no fundo da alma ver o Rio Paraopeba morto e contaminado por minério. E me doeu em todo centímetro do meu corpo, da minha mente e do meu espírito assistir a uma cidade doente sem, de fato, poder fazer nada para curá-la além de ouvir suas histórias.

Por isso, eu grito.

Eu grito pelas vidas que se foram e pelos sonhos interrompidos. Eu grito contra bárbarie cometida pela Vale. Eu grito pela natureza devastada pelos anos de mineração. E eu grito para que talvez essa dor se amenize um dia.

As minhas palavras não me são suficientes para expressar tudo o que deve ser dito sobre o rompimento da barragem do Córrego do Feijão. Compartilho então as vozes todas que ouvi por lá – de cada um que me recebeu de coração aberto dentro da própria casa com um “cafézin”- para que elas possam ressoar para outros. E ter o mesmo efeito que tiveram sobre mim. Fica o recado: não há ganância, não há lucro e não há capital que valha mais que a vida humana.

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